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Qual é a origem de «parabéns»?

A minha sobrinha Olívia faz dois anos hoje. Comemorámos à distância — não só por causa do famoso vírus, mas também porque ela vive em Inglaterra e não dá muito jeito ir lá por estes dias. Para compensar, dedico-lhe este episódio, perguntando: qual é a origem da palavra «parabéns»? Aviso: faremos um desvio pelos sons da palavra antes de chegar à resposta… No fim, encontramos um curioso sinónimo escondido nos nossos dicionários.

Antes de mais — e porque não há assim tanto a dizer sobre a origem desta palavrinha — gostava de chamar a atenção para o final da palavra «parabéns». Aquele «-béns» é o plural de «-bém». Ora, para um estrangeiro que aprenda português, a maneira como lemos aquele «-em» é um pouco estranha. Temos uma letra vogal e uma letra consoante, mas o que sai das nossas bocas é um ditongo nasal, em que juntamos o «a» nasal (/ɐ̃/), que também aparece no final de «maçã», à semivogal que nos lembra um /i/ (mas é bastante diferente) e que os linguistas representam com um /j/: /ɐ̃j/. Se ouvirmos bem, o ditongo é igual ao de «mãe». Já no Brasil, o ditongo de «bem» é lido como /ẽj/, distinguindo-se do ditongo de «mãe», que é lido de forma mais semelhante à portuguesa: /mˈɐ̃j/. 

Antes de avançarmos para a prometida origem da palavra, quero ainda fazer outra paragem, desta vez naquele <s> final, que marca o plural. Esta palavra está sempre no plural, pois é hoje raríssimo encontrar alguém que se lembre de desejar «o parabém». Ficaria sempre a soar a felicitação pela metade, o que não convém. Parabéns como deve ser são sempre no plural! Ora, o nosso plural é representado por aquele <s> no final da palavrinha (que neste caso acompanha a transformação do <m> num <n> na escrita). Só que, da boca para fora, aquele <s> pode ser lido de três maneiras, dependendo do som que aparece na palavra seguinte:

  • Na expressão «parabéns a você», o primeiro verso da música mais mal cantada deste mundo, o <s> lê-se /z/ porque o som seguinte é uma vogal.
  • Se o som seguinte for uma consoante surda, ou seja, em que as cordas vocais não vibram, lemos o <s> como /ʃ/, ou seja, como o primeiro som de «chá». Por exemplo, em «Parabéns, Sofia!».
  • Se dissermos a palavra com uma consoante sonora à frente, sai-nos um <s> lido como se fosse um <j>, ou seja, o som /ʒ/. Por exemplo, quando dizemos «Parabéns, Diogo!» (a Sofia e o Diogo são, já agora, os pais da Olívia e, assim, também estão de parabéns).

Se dissermos a palavra isoladamente, lemos aquele <s> como se fosse um <ch>, ou seja, usando o som /ʃ/.

Como referi no episódio anterior, no início de uma sílaba, usamos o som /ʃ/ e o som /ʒ/ para distinguir significados. Basta pensar em «chá» (/ʃ/) e «já» (/ʒ/). A única diferença entre os dois sons é a vibração das cordas vocais, mas tal basta para sabermos que estamos perante palavras diferentes. Pelo contrário, no final da sílaba, os dois sons são interpretados pelo cérebro como se fossem o mesmo som. São dois sons que não distinguem significados: tanto podemos dizer «parabénʃ» como «parabénʒ», que a palavra parece-nos sempre a mesma. A escrita reflecte isto mesmo: no início da sílaba, escrevemos os dois sons usando letras diferentes; no final da sílaba, usamos a mesma letra.

Quando dois sons são usados numa língua, mas não distinguem significados, os linguistas dizem que estamos perante alofones do mesmo fonema, ou seja, duas variações sonoras da mesma unidade sonora tal como interpretada pelo cérebro. O nosso cérebro é uma máquina complicada… E, confesso, o tema ainda é mais complicado do que parece pela pequena descrição que fiz — mas só com este relato já vemos como é intrincado o motor da língua.

Então e a origem da palavra? Vamos a isso: parece que a palavra portuguesa (também usada no galego) tem origem na preposição «para» unida ao substantivo (que também sabe ser muitas outras coisas) «bem»: «para»+«bem».

Deste «parabém» ao nosso plural «parabéns» foi um pequeno salto. Mas por que razão alguém juntou o «para» e o «bem»? Não consigo chegar a grandes conclusões, mas imagino que todos queremos que a outra pessoa, a quem damos os parabéns, fique bem ou ganhe muitos bens. Mas já estou no campo da suposição…

[Nota: Fernando Venâncio, em comentário, informa-nos do seguinte: «Muito antes de andar nas nossas bocas (e acha-se dicionarizada por 1720), andou em bocas castelhanas, sendo mesmo muito frequente. Originou-se na frase “Para bien sea”. Por volta de 1580, liam-se aí coisas como “con muchas bendiciones y parabienes”. O que é original nosso é que o usemos como fórmula habitual de felicitações, o que o castelhano não faz.»]

Enfim, uma preposição e um substantivo juntaram-se e deram-nos esta bela palavra. Como sempre acontece, a palavra não ficou quieta. Do outro lado do Atlântico, transformou-se no verbo «parabenizar». Por cá, garantem-me os dicionários que existe o verbo «parabentear», mas o coitado não tem saído muito à rua… O que fazemos é pedir ajuda a outras palavras, usando a expressão «dar os parabéns».

Para terminar, relato uma descoberta que fiz enquanto procurava mais informações sobre a origem de «parabéns». Encontrei um sinónimo que, confesso, não conhecia: «prolfaça», que também pode ser usado no plural: «prolfaças». Parece ser mais usado em casamentos. A origem parece clara: vem de «bom prol lhe faça». Está nos dicionários, mas nunca tinha ouvido tal palavra. Acontece muito: há palavras que estão nos dicionários durante séculos e ninguém as usa — e outras que andam à solta pelo mundo por décadas e décadas antes de serem apanhadas pelos dicionários.

Parabéns, Olívia!

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Marco Neves

9 comentários

Que bom, como sempre, Marco!
A exibição de erudição fonética é contudo um bocado enigmática para um galego sem título de lingusta

Olá, caríssimo Joám! Não queria que fosse uma «exibição», mas apenas um chamar a atenção para um pormenor curioso da língua. Se ficou enigmática, terei de trabalhar melhor no futuro. 🙂 Receba um grande abraço de Lisboa!

Bom dia e boa Páscoa. Agradeço a partilha de conhecimentos em momentos de recolhimento provocado pelo vírus, mas nunca é de mais estarmos atentos À nossa língua e o bem que ela nos traz.
Gostava de fazer um reparo, que passo a citar: “E, confesso, o tema ainda é mais complicado do (::::) parece pela pequena descrição que fiz — mas só com este relato já vemos como é intrincado o motor da língua”.
Onde coloquei os parêntesis parece faltar um que. Tudo de bom

Caro Marco, não leve a mal mas essa de o ditongo final de “bem” e “mãe” serem pronunciados de forma idêntica talvez seja verdade onde vive, mas faça uns quilómetros para norte – quando acabar o confinamento, claro – e verá que a pronúncia é bem distinta. Arriscaria mesmo dizer que a maioria da população portuguesa distingue bem os dois ditongos (mas não tenho dados estatísticos). Como vê, não precisava de ir buscar o exemplo ao Brasil… 🙂
Mas “parabéns” pelo artigo!

O problema foi basear-me nas descrições fonéticas habituais, que servem para o ensino do português (de ambos os lados) a estrangeiros. É verdade que a variedade em Portugal é bem maior do que normalmente admitimos e deve ser valorizada. Hei-de compensar a falha num artigo futuro, combinado? Um abraço!

Quanto mais coisas suas leio, mais ignorante me sinto…
Não. Não é uma critica, é um sincero elogio, assim algo pareceido com “quanto mais aprendo, mais percebo o quanto não sei”.

Enfim, parabéns por esta dos parabéns à Olívia: Foi demais!

Já agora deixo aqui uma curiosidade para o espevitar.
Estive cerca de um ano em Madrid a tirar um curso de electrónica, no início da década de 70. Era eu pouco mais que uma criança e a electrónica também…
A minha adaptação ao castelhano não correu mal de todo. Os meus companheiros de curso é que, no início faziam caretas gozonas ao meu nome.
Para eles “armando” não é nome, é o gerúndio do verbo armar e, por isso, em alta paródia, me chamavam “Armando bronca segura”… Adorável!
Mas, muito pior, é o meu apelido “Graça”.
O que eles ouviam e entendiam era “grassa”, ou seja, óleos ou massas consistentes que se aplicam nos nossos carros, coches deles…
Quando consegui explicar o significado do meu apelido, fui promovido a santo, porque, finalmente, entenderam que o meu “graça” era equivalente ao “gracias a Dios” deles…

Enfim, uma pequena amostra das nossas “bizarrias ibéricas”!

Grande abraço, mantendo as distâncias recomendadas

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