Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

O que aconteceu ao plural de «avô»?

A língua portuguesa tem dois plurais masculinos de «avô». Como chegámos a esta situação?

O meu plano era escrever sobre a Noruega e o que a língua desse país nos ensina sobre o português e as outras línguas todas. Hei-de lá chegar! Mas hoje o meu avô Manuel faz anos e decidi-me: vou falar sobre os avós. Serve para lhe desejar um feliz dia de aniversário. São uns bonitos 93 anos…

Os avós estão no centro da tempestade que nos calhou viver. Não só são um grupo de risco, como — nesta época em que as famílias vivem em pequenos núcleos — vêem-se afastados dos netos. Nem todos têm o à-vontade com a tecnologia que permita aliviar um pouco a saudade com conversas por vídeo. Lá vamos tentando fazer com a voz aquilo que costumávamos fazer com os abraços.

Entretanto, e porque esta página tem uma obsessão com as línguas, olho para as palavras. Em português, temos três plurais de «avô». Temos o plural masculino «os avós» (todos os avós); temos outro plural masculino «os avôs» (só os avós do sexo masculino); e ainda o plural feminino «as avós» (só as avós). O plural «os avós» serve também de sinónimo de «antepassados», como vemos nos famosos «egrégios avós» do nosso hino.

Como chegámos a este curioso excesso de plurais?

A palavra «avô» tem origem numa palavra do latim vulgar, que não está registada, mas foi reconstruída: «*aviolus», um diminutivo da palavra «avus». O tal «aviolus» transformou-se em «avoo» (nos primeiros tempos da nossa língua eliminámos com vigor os «l» entre vogais).

Aqueles dois «oo» tornaram-se num «ô». Ora, como acontece em muitas palavras com um «o» que se fechou no singular, o plural manteve um «o» aberto: «avós». Também acontece o mesmo em «ovo»/«ovos» — e tantas, tantas outras palavras. Este texto do Ciberdúvidas explica o mesmo percurso.

Já «avó» teve origem na palavra reconstruída «*avoila», também um diminutivo, que se transformou em «avoa» e, depois, na nossa «avó». O plural é mais óbvio: «avós».

Como vemos, por caminhos diferentes, o plural de «avó» ficou igual ao plural de «avô». A distinção de género faz-se apenas no artigo.

Abriu-se assim espaço para que, a dado momento deste percurso, tenha surgido a forma plural «avôs», para designar apenas os avós do sexo masculino.

Note-se que ninguém planeou este estado de coisas. As palavras fazem o seu percurso pelos séculos fora sem pedir autorização a ninguém. Às vezes, há quem se lembre de inventar uma ou outra palavra e limar uma ou outra aresta. Mas a língua é o resultado de milhares de pequenas histórias como estas, que reconstruímos o melhor que podemos, mas que não são planeadas.

Para terminar, queria só sublinhar o que disse acima: tanto «avô» como «avó» provêm (tudo indica) de diminutivos — ou seja, do «avozinho» e da «avozinha» do latim lá de casa… As formas carinhosas tornaram-se nas únicas formas usadas pelos falantes, até precisarem de novos diminutivos, também eles carinhosos.

Ao meu avô Manel, que vai a caminho de um século de aventuras: muitos parabéns!

*

Aqui fica outro texto em que participa o meu avô. É um dos capítulos do livro A Incrível História Secreta da Língua Portuguesa.

O estranho caso do galego que não podia abrir a boca em Portugal

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Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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4 comentários
  • Como os Castellanos transformaram todos os “v” em “b”, a origem de “abuelo” deve ser a mesma.

  • Como reintegracionista galego convencido este tema dos avós, os avôs… as avós e tal resulta-me bem chocante. A esta salada adicionamos a forma antiga, avoa e o seu plural avoas.

    Como dizer? Pois eu decidim usar avô/avoa no singular e como plurais correspondentes os avôs/as avoas, deixando “os avós” para incluir avô e avoa. Mas a modernidade prefere “as” avós para incluir home e mulher…

    E bem, outras vezes escrevo avó, nomeadamente quando falo com portugueses…

    Mimá! Alguém dixo que esta língua era fácil?

  • Mal me recordo dos meus avós nem dos meus avôs, embora no caso das avós só me recordo de uma delas. Nunca tinha escrito nada assim… Nem sei se é pelo tempo já ter passado e eu ter esquecido o que aprendi, ou não.
    Já não tenho este tipo de problema, porque serão agora os meus netos que terão de dizer este tipo de palavras.
    Muito interessante este artigo, parabéns Marco e muito obrigado.
    Pedro

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