Certas PalavrasPágina de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Viagem pelos seis alfabetos do mundo

Ando a preparar um texto sobre um dos poucos sistemas de escrita indecifráveis que ainda há no mundo. Não vou adiantar mais sobre o assunto — o certo é que o texto anda devagar, os dias são curtos, há tanta coisa… Mas ao ler sobre esse estranho sistema de escrita, fui-me lembrando dos nossos conhecidos alfabetos.

Uma grande parte das línguas do mundo não usa alfabetos: por exemplo, o chinês usa um sistema de escrita logográfica, em que cada símbolo representa uma palavra ou morfema; o japonês usa um sistema de escrita silábica, em que cada símbolo representa uma sílaba; o árabe usa um sistema consonântico (ou «abjad»), em que cada símbolo representa uma consoante e as vogais são representadas por sinais diacríticos — à semelhança dos nossos acentos — ou ignoradas (para ser preciso, o sistema árabe representa algumas vogais).

Já os alfabetos são sistemas de escrita que representam tanto as vogais como as consoantes. Representam, portanto, os sons. (Tecnicamente, os alfabetos tentam representar os fonemas e não os sons, mas isso fica para outro dia. Diga-se, já agora, que o verbo «tentar» é significativo: como sabemos, a ortografia da grande maioria das línguas é tudo menos simples.)

Pois bem, como ainda não consegui acabar o tal texto, lembrei-me de deixar aqui uma pequena nota sobre os seis alfabetos do mundo para aliviar a comichão da escrita…

1. Alfabeto grego

Começamos pelo grego, com letras tão nossas conhecidas. Não só sabemos alguns dos nomes («alfa» e «ómega», para começar e acabar), como até identificamos alguns dos sons. Neste caso, a matemática dá-nos uma ajuda. Afinal, o nome do nosso país em grego começa pela letra pi — embora maiúscula: Πορτογαλία.

Muitas das nossas palavras vêm do grego — mas o aspecto é bem outro. Basta pensar na «geografia», que em grego é praticamente igual, não fosse ser tão diferente: γεωγραφία. 

2. Alfabeto cirílico

Um alfabeto que nasceu a partir do grego e é hoje usado em muitas línguas eslavas (e não só). Há uma letra magnífica neste alfabeto: Щ. Magnífica porque representa, em ucraniano, os sons «chtch». Uma só letra para tanto «ch»…

Curiosamente, há uma língua que usava este alfabeto até há poucos meses e agora usa o nosso alfabeto latino. Falo do cazaque. Esta mudança não se fez sem alguma resistência, principalmente porque a versão original da ortografia latina do cazaque enchia a escrita de apóstrofos, o que era visto por muitos como pouco prático e muito feio.

Pois, no dia 19 de Fevereiro de 2018, o governo do Cazaquistão aboliu os apóstrofos e afinou a ortografia. A transição continua com o objectivo de ter uma língua escrita em alfabeto latino.

Esta mudança fez-se, curiosamente, para que a língua se tornasse mais distinta do russo, que também é muito usado no país. Ou seja, este povo tem agora dois alfabetos em vez de um em nome da identidade da sua língua própria. A escrita é muito mais do que um código: é uma bandeira — e convém ser uma bandeira bonita, como dizem os cazaques com horror ao excesso de apóstrofos.

Não Já agora, lembro outra língua que também passou a usar o alfabeto latino: o turco. Até ao início do século XX, usava o «alfabeto» árabe (as aspas ficam para lembrar que, na verdade, o árabe usa um abjad). Mas já voltamos ao turco. Antes disso, olhemos para um alfabeto ali ao lado…

3. Alfabeto arménio

Chegamos agora a um alfabeto um pouco mais distante e que poucas vezes nos passa pela frente: o alfabeto arménio. O aspecto é este:

É um alfabeto antigo, criado no século V e que tem hoje em dia 39 letras, o que, nos computadores, obriga a usar teclas que, pelos nossos lados, levam sinais de pontuação e acentos.

Continuemos a viagem sem sair da mesma região do mundo…

4. Alfabeto georgiano

Pois, se o arménio é pouco conhecido, não deixa de ter o seu ar de escrita normal, a lembrar, de vez em quando, as nossas letras. Já o georgiano… O georgiano é outra coisa! Parece um alfabeto para brincar, inventado por crianças, cheio de bolinhas, letras redondinhas e corações:

O mais curioso? Não se sabe muito bem qual é a origem deste alfabeto…

5. Alfabeto latino

O nosso estimadíssimo alfabeto, usado um pouco por todo o mundo, desde o português ao… vietnamita!

O alfabeto é só um, mas a maneira como cada língua usa as letras varia muito pelo mundo fora. O inglês, como sabemos, usa apenas as letras, sem mais sinais — embora, na verdade, isto seja muito enganador: é uma língua que tende a preservar os sinais que vêm com as palavras que engole, como no caso de façade. Aliás, para dizer a verdade, esta aparente simplicidade do alfabeto à inglesa esconde uma ortografia complexa, cheia de letras com várias leituras (ou nenhuma, como o «k» e o «gh» de «knight»).

Temos ainda o turco, que decidiu dar à pinta do «i» o estatuto de acento, o que significa que há um «i» sem pinta («ı» e «I») e um «i» com pinta («i» e «İ»). Repare o leitor que o nosso «i» tem pinta na versão minúscula e não tem pinta na versão maiúscula. Já os turcos gostam de pôr os pontos nos is…

Mas a língua que usa o alfabeto latino de forma mais curiosa é o vietnamita. Não se limita a ter acentos, mas tem acentos em cima de acentos — o que parece ser essencial para representar os vários tons de cada sílaba, tons esses necessários para distinguir significados. Aqui fica um exemplo (o início do artigo wikipédico sobre o vietnamita em vietnamita):

Sim, aquele «e» no título tem um acento circunflexo e um acento agudo ao mesmo tempo! Pensará o leitor que os vietnamitas são loucos? Enfim, loucos terão sido os missionários portugueses que inventaram tal sistema. O certo é que os vietnamitas, hoje em dia, usam sem problemas um alfabeto pintalgado de acentos e riscos por todo o lado.

6. Alfabeto coreano

A escrita coreana tem este aspecto:

Alfabeto? Não será isto um sistema logográfico como o chinês ou um silabário como o japonês? Na verdade, não. O coreano é um alfabeto, pois representa as consoantes e as vogais.

No entanto, as consoantes e as vogais são representadas não de forma linear, mas antes em grupos silábicos. Assim, cada símbolo é uma sílaba, mas pode ser dividido nos vários sons que compõem essa sílaba. Aqui está a divisão da palavra «Hangeul», que significa «coreano» (a fonte da imagem é esta):

Fonte: Wikicommons.

Já agora, para terminar, convém dizer algo que nos parece pouco natural, mas é verdade: uma língua não depende do alfabeto em que está escrita. O português podia ser escrito usando o alfabeto grego, desde que encontrássemos regras de ortografia para esse uso. Por exemplo, a frase «Como te chamas?» poderia ser escrita «Κομο τε χαμας;» — e continuaria a ser português… Isto, claro, se os portugueses estivessem para aí virados — o que não estão e ainda bem!

E pronto, foi esta a nossa pequena viagem pelos alfabetos do mundo.

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Autor
Marco Neves

Professor na Universidade Nova de Lisboa, tradutor na Eurologos e autor da História do Português desde o Big Bang.

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22 comentários
  • Um artigo admirável, muitos parabéns!

    Mas acho que é de explorar o seguinte:

    “Já agora, para terminar, convém dizer algo que nos parece pouco natural, mas é verdade: uma língua não depende do alfabeto em que está escrita.”

    Totalmente de acordo, mas porque é que “nos parece pouco natural”? O que nos leva a confundir o fenómeno natural, que é a língua, com um conjunto de símbolos gráficos que é usado para a representar? Quais os processos mentais relacionados à associação de um conjunto de símbolos (num alfabeto ou noutro sistema de escrita) e a um conceito/palavra numa língua? Por certo devem haver montes de estudos de neurologia, psicolinguística, etc. sobre este assunto.

    (Independentemente da minha opinião sobre o novo acordo ortográfico, parte da resistência à ado(p)ção de mudanças parece-me estar relacionado com esta observação: “algo que nos parece pouco natural”).

    E já agora, porquê “ainda bem” na seguinte frase:

    “Isto, claro, se os portugueses estivessem para aí virados — o que não estão e ainda bem!”
    ?

    Não digo que não, mas porquê?

  • Bom dia. Mais uma vez, muito interessante. Pena saber a pouco. Também contava encontrar o “alfabeto” (também não tem vogais…) Hebraico cuja história se liga, de alguma forma, com a nossa… Ficará para a próxima?

  • Obrigada, interessante. E no caso chinês a mesma língua escrita serve para diferentes línguas orais (que chamam de dialetos, versus o chinês padrão), por isso todos os programas televisivos são legendados em verbatim, para que todos entendam a linguagem oral.

  • Apaixonante, as línguas e a sua tradução grafica. Belo programa. Precisaríamos de várias vidas para as aprendermos todas, mas que riqueza !

  • Boa noite! Lindos os alfabetos de Armênia e Kartvelio. O idioma Moldavio é Latino, porém escrito em cirílico. Um abração

  • Continuando a ideia lançada no artigo, se bem me lembro, a história de “O Último Cabalista de Lisboa”, de Richard Zimler, começa precisamente com a descoberta, em Constantinopla, de intrigantes textos que estavam escritos em alfabeto hebraico mas cuja língua não era hebraico, mas sim português.

  • Bom dia.

    Muito bom! Tão bom, que assinei o blogue, que não conhecia…
    Há tempo para uma consulta?
    Se sim, as letras acentuadas têm nome?
    Se não… gostei na mesma!
    Obrigado e, por favor, continue!

  • Interessante a observação sobre alfabetos e ortografias . Cada língua tem suas peculiaridades e a ortografia é no fundo o único modo de uniformizar pronúncias . Existem línguas exclusivamente fonéticas ? O “a” do inglês australiano soa como “a” mesmo ( good dái) mas o “a” norte americano soa como “ei”, ou “é” ou outra variação . Tomemos a palavra “vinte” em português : é “vint” em português europeu, é “vintchi” em português do Rio de Janeiro, “vinti “ na região onde moro ( São Paulo), “vinte” com ênfase no e nas regiões do sul do Brasil . A grafia vinte é a única maneira de uniformizar sotaques e pronúncias

    • O “vinte” só tem duas maneiras de se falar no Brazil: “vinte” & “vinti” a maior parte do Brazil fala VINTI, incluindo SP, RIO e boa parte do nordeste

  • Caminhos difíceis, estes, das línguas, mas um tema bastante curioso. Obrigada pela partilha.

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Marco Neves

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