Certas PalavrasPublicação de Marco Neves sobre línguas e outras viagens

Afinal, diz-se “espanhol” ou “castelhano”?

Já me aconteceu usar o termo “espanhol” e ter alguém a corrigir-me, como se tivesse dito um grande disparate: afinal, devia saber que o nome correcto da língua oficial de Espanha é “castelhano”. Também já ouvi um espanhol a declarar alto e bom som que a sua língua é a espanhola e nunca por nunca diria que fala “castelhano” — esse espanhol parecia, aliás, bastante indignado com o uso da palavra “castelhano”.

A questão, na realidade, até é simples: a língua oficial em Espanha (e em vários outros países) tem dois nomes: “espanhol” e “castelhano”. Ambos se referem à mesma língua e são sinónimos. Ponto final.

Enfim, os pontos finais raramente são completamente finais… Os termos “espanhol” e “castelhano” são usados em situações diferentes, embora continuem sempre a referir-se à mesma língua. Espanha usa preferencialmente o termo “espanhol” nas suas relações com o exterior (por exemplo, através da acção do Instituto Cervantes). No território espanhol, o termo “castelhano” é usado, muitas vezes, como forma de contrapor o espanhol às outras línguas de Espanha. A própria Constituição Espanhola chama “castelhano” à língua oficial em toda a Espanha (co-oficial com outras línguas nalgumas regiões).

Nos outros países “hispanohablantes”, as várias constituições escolhem, de forma aparentemente aleatória, uma ou outra denominação da língua. O uso real do nome pela população varia de país para país:

 

[Fonte]

Como podemos ver no mapa acima, nas regiões espanholas onde também existe outra língua oficial, usa-se preferencialmente o termo “castelhano” — isto se exceptuarmos os independentistas, que dirão “espanhol” com prazer, pois é a língua de Espanha, que não é o país com o qual se identificam. Os outros habitantes das nacionalidades históricas preferem “castelhano” porque sabem que é apenas uma das várias línguas espanholas.

Já conheci catalães que nunca diriam “espanhol” para se referirem à língua de Espanha — mas também conheci uma mexicana que nem conhecia o termo “castelhano” para se referir à língua que falava. Também nos E.U.A., onde o espanhol é a segunda língua, com uma tradição de séculos, praticamente ninguém usa o termo “castelhano”.

Já a Real Academia Espanhola, assumindo que ambos os termos são correctos e sinónimos, recomenda o uso do termo “espanhol”.

Para resumir: em Portugal, podemos usar ambos os termos. Se querem um conselho, prefiram “espanhol”, que sempre é mais comum e mais claro… Mas nem por sombras se lembrem de corrigir alguém porque prefere dizer “castelhano”.

Instituto Cervantes

Autor
Marco Neves

Tradutor na Eurologos, professor na Universidade Nova de Lisboa e autor da Gramática para Todos.

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27 comentários
  • A língua castelhana na Espanha oficialmente chama-se “castelhano”, isto é “castellano”. De maneira não oficial (e sobretudo nos países hispanofalantes da América) admite-se o termo “espanhol” para o “castelhano”, mas não tem o mesmo significado e mesmo pode ser ofensivo, sim, porque na Espanha há mais línguas oficiais do que o castelhano, e chamar uma delas de “espanhol” significa esquecer as outras, tomar a parte pelo tudo e quase fazer desaparecer a existência das outras línguas oficiais. Uma dessas outras línguas oficiais da Espanha é o chamado “galego” que é português (escrito com uma ortografia diferente por causa de problemas políticos entre a Espanha e Portugal que aguardamos ver superados algum dia para bem da língua portuguesa e dos galegos todos).

    • Obrigado pelo comentário! Em Espanha, a constituição usa o termo “castellano”, mas o Estado espanhol usa também o termo “español” de forma oficial em muitos casos. Mas é um uso que pode ferir algumas sensibilidades, de facto. Seja como for, tendo em conta que até o Instituto Cervantes usa o termo “español”, o uso do termo “espanhol” em Portugal é correctíssimo (e “castelhano” também).

    • Já agora, obrigado pela referência ao galego, a que voltaremos neste site. Se quiser propor um artigo para publicação sobre a sua perspectiva sobre o galego, seria óptimo!

    • O galego neste momento só é falado nas populações rurais da Galiza. Está em total desuso nas zonas urbanas e as comunidades mais jovens não o utilizam.

    • Eu vivi 8 anos em Galícia e concordo com os temas políticos ali existentes, mas posso assegurar que em Galícia esta muito longe de ser o idioma português pois antes de ser Galícia, era território Celta e pode se dizer que o idioma vem antes do “Espanhol” e que o idioma galego seria mas bem um “Portunhol”, por ser mais antigo que o castelhano que se utilizava esse termo e que até hoje se utiliza por causa de Reino de Castela , nos tempos medievais. Ou seja Castelhano e Espanhol são sinônimos.

  • Como sempre, “siempre la lengua fue compañera del imperio” (Lebrixa, 1492). A CE 1978 no art. 3.1. denomina a “lengua oficial del estado” “castellano”; não lhe diz também “español”,
    O ÚNICO NOME OFICIAL e CONSTITUCIONAL da “lengua oficial del estado” bourbónico é CASTELLANO.
    Outra cousa é que a RAE, por exemplo, seja ANTICONSTITUCIONAL ESPAÑOLA e utilize em exclusivo “espaÑol”.
    É habitual no reino bourbónico que as instituições sejam e procedam ANTICONSTITUCIONALMENTE, a começar pelo artigo da CE 1978 referente à “persona del rey”, a quem declara “inviolable”, contra o estabelecido nos arts. 14. e 10.2 dessa CE 1978.

  • Espanha é uma simples modernização de Hispânia que sempre se referiu ao conjunto da Península Ibérica. Sempre que o reino de Castela adotou o termo Espanha foi para reivindicar o direito ao conjunto da península – projeto, aliás, realizado durante 60 anos. O próprio D. Manuel terá protestado contra a adoção de tal título (que, na verdade, ele próprio desejava). Desta forma, qualquer português que se orgulhe do seu patriotismo não deveria usar não só o termo “espanhol”, mas também o termo “Espanha” para designar o reino de Castela, uma constante ameaça para Portugal, como se mostra pelo projeto ainda acarinhado por Franco de anexação de Portugal.

    • Sim, até à Restauração o termo Espanha (ou “Hespanha”) servia para o conjunto da Península, mas a partir daí passou a designar o Estado que ocupa toda a Península menos Portugal, Andorra e Gibraltar. Não há qualquer falha patriótica em usar o termo “Espanha” e “espanhol” para o Estado vizinho e para a língua. Havia, é certo, esse projecto de unificação (também alimentado, por vezes, pela monarquia portuguesa), mas o uso destas palavras por parte de portugueses está longe de significar qualquer apoio a essa unificação.

  • Devo referir que essa era a primeira coisa que nos perguntavam na faculdade em História da Língua Espanhola, ao que respondíamos quase unanimemente que era castelhano. Linguisticamente o castelhano não existe e a língua falada em Espanha é o espanhol que, quanto muito, é uma língua castelhana. O castelhano foi a língua oficializada por Afonso X que sofreu tantas transformações já que os linguistas insistem que será mais correto designar esse idioma como espanhol. Este é o argumento linguístico, os restantes argumentos aqui apresentados prendem-se com suscetibilidades regionais ou questões legais.
    Cumprimentos

  • A língua oficial do reino de españa é o espanhol, portanto, a do reino unido da grã bretanha e irlanda do norte, junto com os outros países por eles colonizados é…. o británico….

    • A língua falada no Reino Unido é o inglês e não se usa outro nome. No caso do espanhol, há dois nomes em circulação: «espanhol» e «castelhano».

  • A língua chamasse-lhe castelão porque nasceu em Castela. E tamém se lhe chama espanhol, porque este foi o país que a espalhou polo mundo (Espanha).
    Na nossa língua sucede o mesmo. Pode-se usar galego, porque a língua nasceu na Galiza (na antiga Gallaecia). E tamém se lhe pode denominar português, porque este foi o país que a espalhou polo mundo (Portugal).
    Castelão/espanhol, galego/português… som diferentes denominações que recebe a mesma língua, som sinónimos e cada um pode usalo nome que lhe pete. Incluso, até pode alternar de nomenclaturas num mesmo texto; pra ter mais variedade léxica.

  • Nom entendo a teima que tédelos portugueses n´usar “castelhano”. Esse o castelanismo mais descarado que existe. Castellano vêm de Castilla. Castelão vêm de Castela. Por que nom usádela forma enxebre “castelão”?

  • Vivi na Galiza durante quatro anos. Posso afirmar que nas cidades ou localidades rurais algumas escolas e colégios usam unicamente o galego. Para manter a tradição da língua original dessa província. Na zona rural onde vivia, Mondariz, as pessoas falavam orgulhosamente galego.. em Vigo, a cidade grande mais próxima, as pessoas preferiam usar o castelão (confesso que não sabia que castelão é sinónimo de castelhano). Arrisco dizer que algumas pessoas olhavam com desdém para quem falasse galego.. outras temiam já não saber falar correctamente. Era também comum misturarem-se as línguas. Acontecia comigo.. 🙂 Fiquei a saber que o galego também muda conforme os governos.. uns tornam a língua mais próxima do nosso português e outros mais próxima do castelhano.. por exemplo a palavra “graças” que, sinceramente, não sei se neste momento está a ser ensinada nas escolas com o significado “gracias” ou se já evoluiu para gracias mesmo em galego.

  • Marco, qual é o uso maioritário em Portugal entre a gente da rua? “Castelhano” ou “espanhol”?

    • A minha impressão é que «espanhol» é muito mais comum. Mesmo nas faculdades e escolas onde se aprende a língua, a disciplina costuma ter o nome de «Espanhol».

  • O “Espanhol”, na verdade, nasceu em 1923

    https://www.elnacional.cat/es/cultura/marc-pons-primo-rivera-aniquilar-catalan_242520_102.html

    “Ése no es el único pecado de nuestra admirada Academia. Desde su fundación el diccionario se llamó Diccionario de la lengua castellana pero en 1925 la 15ª edición sustituyó “castellana” por “española”. Así lo explicó entonces: “…como consecuencia de la mayor atención consagrada a las múltiples regiones lingüísticas, el nuevo Diccionario adopta el nombre de “lengua española” en vez del de “castellana”. Una explicación nada convincente que señala en la dirección opuesta; si presta más atención a las regiones lingüísticas, resulta más lógico llamarla castellana pues españolas son todas las que se hablan en España. Cabe pensar que fue un cambio político en apoyo al dictador Primo de Rivera que puso trabas al uso de las lenguas regionales para afianzar la unidad española.”
    retirado de: https://www.diariodesevilla.es/opinion/tribuna/mito-Real-Academia_0_1220278462.html

    O nome da língua sempre foi castelhano, mas os nacionalistas decidiram rebaptizá-la.

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