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Quais são as palavras mais feias do português?

Uma língua é feita de palavras bonitas, palavras úteis, palavras irritantes, palavras que deliciam, palavras que não servem para nada, palavras feias como tudo. Pois, hoje, apetece-me falar destas últimas.

Ando a juntar materiais para um livro sobre a nossa estimada língua. Ora, lembrei-me de perguntar aos leitores da página Certas Palavras quais são as palavras mais bonitas, os erros mais irritantes e as palavras mais feias do português…

As respostas foram muitas e muito interessantes. Pois, hoje, revelo aqui as doze palavras mais feias da língua — segundo os meus leitores. (Os palavrões, palavras feias por natureza, hão-de ser revelados noutra lista.)

Esta e as outras listas serão incluídas no tal livro, cujo título irei enviar, em breve, a todos os leitores que participaram neste exercício. Muito obrigado!

Começo pelo 12.º lugar e termino na palavra mais feia…

12. Picheleiro

Desconfio que o problema, neste caso, é a palavra que está ali por trás, a bater à porta. Porque a actividade dum picheleiro é inocente…

11. Furúnculo

Uma palavra com muito «u», mais ou menos nasal. Como é que uma palavra com vogais tão monótonas havia de ser bonita? Ainda por cima, o que vem à nossa cabeça quando a ouvimos não é das coisas mais agradáveis do mundo.

10. Nauseabundo

Será do som? Será da náusea? Será do bundo? Será do cheiro? Não sei, mas sei que ninguém parece gostar da palavrinha (que, aliás, tem pouco de «inha»).

9. Conspurcar

Não gostamos de palavras porcas, está visto. Queremos a língua limpa, a cheirar a rosas. Que ninguém a conspurque, se faz favor!

8. Porrada

Pode ser uma palavra feia, mas a verdade é que, quando há porrada, muita gente quer ver.

7. Corrupção

Será que o «rr» é especialmente feio? Aparece em várias destas palavras. É um som que arranha — mas é bem provável que, no caso da corrupção, o problema seja mesmo a dita cuja (e «dita cuja», não sendo uma só palavra, também merecia aparecer numa destas listas).

6. Escarro

Temos o «rr» e temos o nojo. Junta-se a fome à vontade de comer e surge uma palavra feia como poucas.

5. Sovaco

Nem muito desodorizante retira o cheiro incomodativo à palavra…

4. Ódio

Não é bonito. Nem o ódio nem, pelos vistos, a palavra que o refere.

3. Cônjuge

Como é que alguém que amamos ganhou um nome tão feio?

2. Escroque

Muito som /k/ e um significado a dar para o feio aliam-se para dar o segundo lugar ao escroque. Mas se for um escroque badalhoco, ganha o primeiro lugar…

1. Badalhoco

Não gostamos de palavras sujas, está visto. O «badalhoco» ganha o prémio de palavra mais feia da língua. O que não quer dizer que não continue, por muitos e bons anos, nos dicionários e nas bocas de todos os falantes…

Tenho de deixar aqui algumas menções desonrosas. Houve referências a palavras como: «sobrancelha», «idem», «carrasco», «cueca», «ranho», «repudiar», «chato», «coima», «concomitantemente», «sanfona», «contabilidade»…

Há palavras que nos deixam com um mau sabor na boca. Não faz mal — as palavras bonitas também são muitas, mas ficam para outro dia…

(Uma versão deste texto foi publicada como crónica no Sapo 24.)

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Marco Neves

7 comentários

Claro, não são as palavras, elas mesmas, que são “feias”. Nada impediria NAUSEABUNDO de significar algo idílico, ou pelo menos passável. Custa a crer, eu sei. Mas a verdade é essa. O que fazemos é projectar o significado no som… o que não fazemos em MEDITABUNDO, para citar algo parecido.

Marcos Neves, escrevi no meu blog sobre um colega de trabalho de alcunha “Coronel Badalhoca”. Não sei se badalhoca e badalhoco são aparentados, mas vamos e convenhamos, ambas são feias. Se tiver tempo, dê uma “paquerada” no meu blog em

Marcos Neves, escrevi no meu blog sobre um colega de trabalho de alcunha “Coronel Badalhoca”. Não sei se badalhoca e badalhoco são aparentados, mas vamos e convenhamos, ambas são feias. Se tiver tempo, dê uma “paquerada” no meu blog. Procure no Google por “coronel badalhoca”. Abraços, Mauricio

Texto retirado de um jornal alagoano sobre palavras feias e a famosa frase de Gracialiano Ramos.

O rabugento Graciliano Ramos

Há muitos anos, perguntei a meu irmão Fábio Lopes Magalhães sua opinião sobre um ensaio meu. Ele disse que o texto estava ótimo, só uma palavra o incomodava: o pronome “cujo”. “O ensaio está tão bom que não precisaria desse termo”, disse ele, expressando sua antipatia pelo tal vocábulo. Desde então, devo confessar, eu me policio no momento em que vou utilizá-lo. Sempre que o emprego numa oração – gosto dele – lembro-me do comentário desse meu leitor.

Certa vez, escrevendo sobre a Aids para uma coluna de jornal, usei a palavra “aidético” sete vezes por todo o texto. O editor daquele jornal a substituiu por outra: “Soropositivo causa menos impacto”, justificou. Assim como alguns têm suas palavras preferidas (saudade, amor, Deus, paz e amizade estão entre as mais citadas), quase todo mundo tem uma de que não gosta (cujo, deveras, decerto e alhures se destacam entre as mais esquisitas). Por princípio, alguns escritores nunca se valem de palavrões (nem quando escrevem ficção), Guimarães Rosa não gostava do lugar-comum no vocabulário (tanto que tinha seu próprio linguajar); eu, em particular, não tenho antipatia por nenhum vocábulo, se bem que acho os mais eruditos, para a prosa, inúteis.

O folclore literário nos conta que Graciliano Ramos chegou a expressar, com fervor, seu ódio pelo advérbio “outrossim”. Tão certa quanto a importância de Graciliano para a literatura foi sua rabugice, principalmente com quem maltratava o idioma. Quando ele trabalhava como revisor do jornal Correio da Manhã, ficou enfurecido com o repórter que lhe entregara um texto com o intragável “outrossim”. O malcriado revisor resmungou alguns palavrões e, por fim, rugiu: “Outrossim é a puta que o pariu!”

Essa história é narrada, com algumas variações no modo como isso se passou, por biógrafos de Graciliano e por pessoas de seu círculo de amizade. O saudoso poeta Lêdo Ivo contou o dia em que Graciliano pôs os olhos sobre um texto no qual certo autor, em tom de bajulação ao governo Vargas, assim escreveu: “Mas, no entanto, contudo, todavia, o Estado Nacional…” O birrento Graciliano não custou a filho-da-puteá-lo por causa da sucessão de conjunções desnecessárias, ele “fez uma alusão bastante desprimorosa à genitora daquele cientista político”, relatou o discreto Lêdo Ivo.

Era comum ouvir todo tipo de xingamento do autor de Vidas Secas ao se deparar com palavras ou expressões pomposas no meio do texto. Logo urrava com quem se atrevesse a lhe mostrar pobreza na gramática: “Cavalo!” Exigente com o bom uso da Língua Portuguesa, não menos irritadiço com o desrespeito às questões vernáculas, o Velho Graça se comportava como um cão raivoso da literatura, sempre pronto para usar toda a sua fúria em prol desse ideal. “Mestre do idioma, não era como certos escritores que derrapam no português porque aprenderam a escrever de orelhada. Ele sabia teoria da língua, como um gramaticólogo”, confidenciou-nos o escritor Antonio Callado sobre o mais antipático (e mais genial) escritor alagoano.

Olá, Marcos.

Muito interessante o artigo. Realmente existem inúmeras palavras “feias” na língua portuguesa e outras eu diria estranhas. Algumas também muito engraçadas.

Confesso que algumas palavras só as vejo nos dicionários, pois dificilmente escutamos no nosso dia a dia. Pelo menos no Brasil e na região Sul.

Existe um conceito zoológico a que corresponde simultaneamente, na minha subjetiva opinião, uma das mais horríveis e uma das mais belas palavras da língua portuguesa: alforreca e água-viva.
Parece que taxonomicamente não serão exatamente a mesma coisa, mas sem dúvida que, quando vê um ser vivo gelatinoso na praia ou à deriva no mar, sem mais pruridos de rigor científico, um português tende a chamar-lhe a primeira e um brasileiro a segunda.
Não sei o que lhe chamam os falantes de português em outras partidas do mundo, mas espero sinceramente que seja água-viva. Sou português e cada vez que tenho de dizer alforreca a palavra enrola-se-me na boca e soa-me a uma mistura de cueca com forreta, duas palavras que também não serão das mais elegantes da nossa língua.
Obrigado por este desafio tão curioso!

Para mim as palavras mais feias do português são actualmente as que se tornaram bastante feias por serem escritas ao abrigo do AO 90.

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