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«Terramoto» é erro de português?

Pequena viagem às superstições da língua.

«Terramoto»? Não! «Terremoto» é que é!

Mas há quem diga isto? Sim! Há mesmo quem ache que o uso de «terramoto» em Portugal é uma insuportável prova da decadência da língua – o correcto seria apenas o antigo «terremoto» (como, aliás, os brasileiros ainda escrevem).

Confesso: foi um pequeno texto num jornal cujo título já não recordo, há muitos anos, que primeiro me alertou para este mundo maravilhoso dos inventores de erros. O autor insultava quem usava «terramoto». Ora, se passo anos a ouvir «terramoto», a ler «terramoto», a aprender na escola que houve um «Terramoto de 1755», por que razão era ali insultado por usar a palavra que aprendera?

Descobri nesse dia o moralismo linguístico, ou seja, aquela crença de que uma determinada forma de usar a língua é a única moralmente aceitável. Todas as outras serão demonstrações de decadência moral (sim, moral).

Fora esses casos extremos dos moralistas da língua, muitos dos falsos erros surgem da insegurança que muitos sentem e da genuína preocupação em não errar. Surgem dos medos que todos sentimos. Ou seja, todos podemos cair em hipercorrecções porque todos sentimos, mais cedo ou mais tarde, certas inseguranças. Por isso mesmo, aconselha-se cautela. Antes de atirar pedras, tenhamos um pouco de bom senso, usemos a dúvida, sempre tão inteligente. Mas será só moralismo ou também medo? Talvez também haja muito de superstição.

Superstição: encontrei esta palavra para descrever os erros falsos no livro Accidence Will Happen, de Oliver Kamm. O autor é um antigo «stickler» (uma expressão inglesa para «pedante»), que passava o tempo a dar conselhos linguísticos com pouco fundamento num jornal, percebeu que estava errado e passou a olhar para a língua com outros olhos, depois de a estudar melhor e deixar de lado as superstições infantis.

Ao ler bons livros sobre a língua e ao embrenhar-se no estudo da linguística, descobriu que a língua não está à beira do precipício, que há regras e «regras», que podemos e devemos discutir o uso da língua, mas com base nos factos e não das superstições e – o que é verdade – as ideias erradas dos pedantes são prejudiciais para quem quer escrever bem.

Deixou de dar conselhos? Não, mas passou a dá-los com mais exigência e conhecimento, clareza e tolerância – com um pouco de civismo linguístico! Conto isto porque gostei dessa palavra que ele utilizou: de facto, muitas das proibições que por aí se espalham são superstições.


O medo do «espaço de tempo», do «copo de água», do «não há nada» e de tantos outros supostos erros que não são erros coisa nenhuma são superstições dos inseguros da língua: são pessoas que acham que, se conseguirem proibir tais construções, vão obrigar os outros a pensar melhor e a escrever melhor. É um pouco como um adolescente pensar que, se não pisar as pedras azuis da calçada, vai conseguir passar no exame.

Não: o adolescente não passa no exame por isso – e os inventores de erros não passam a escrever melhor; apenas amputam a língua e mostram falta de respeito pelos outros falantes.

Claro que os supersticiosos contrapõem logo: lá vêm estes dizer que vale tudo! Não, amigos: dizer a um supersticioso que pode entrar em casa com o pé esquerdo não é o mesmo que dizer que pode entrar com os sapatos sujos. Percebem a diferença?

Mais (só para ficar claro, já que os pedantes gostam de exagerar): dizer a uma criança que pode pisar as pedras brancas e azuis da calçada sem problemas não é o mesmo que dizer que pode atravessar a estrada sem olhar.

Voltando à palavra que nos ocupa nesta entrada: dizer que «terramoto» é a expressão habitual em Portugal não é o mesmo que defender o uso, por exemplo, de «tarramoto».

Que se limitem a eles próprios, enfim, ainda se aceita. Mas o problema é que os tais supersticiosos da língua querem obrigar toda a gente a andar só pelas pedras azuis e a entrar em casa sempre com o pé direito – só para se sentirem bem, provavelmente. E se não concordarmos, ainda nos insultam, dizendo que não sabemos andar (neste caso, falar).

É curiosíssimo como estas superstições surgem em várias línguas e em várias épocas. Não é um problema só nosso. Valha-nos isso.

Ora, amigos que tremem de medo ao usar a língua: vá, não sejam supersticiosos. Todos podemos escrever e falar cada vez melhor sem andarmos a atirar uns aos outros superstições infantis e inúteis. Note-se: combater estes erros como faço neste dicionário não quer dizer que não aconselhe a que tenhamos cuidado com a língua. Mas ter cuidado, como? Algumas ideias: ler cada vez mais para aprender a usar bem a língua escrita. Rever bem os nossos textos. Avisar gentilmente (e em privado) quando encontrarmos erros nos textos dos outros. Ser criativos com a nossa língua. Conhecer bem as possibilidades do português. Procurar formas de renovar o discurso, tentando não cair em clichês e frases feitas. Pensar e ler sobre a língua, com curiosidade sobre o funcionamento da mesma. Discutir estas questões sem tantas pedras na mão. Ler. Falar. Escrever. Ouvir. Repito-me? Não faz mal. Ler… Falar… Escrever… Ouvir…

Capítulo do livro Dicionário de Erros Falsos e Mitos do Português.

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Marco Neves

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